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Além do Machismo
ou
(a febre do Souvenir)

Todos nós começamos no mergulho ouvindo conceitos de segurança, de companheirismo e de dependencia do dupla. Mergulhe em dupla, esteja próximo do seu dupla, ajude seu dupla, mantenha contato com seu dupla.
Independente da discussão retórica, quando você cai num naufrágio muita coisa muda de figura, como já foi escrito, um prato de porcelana da primeira classe do Dória, tem grandes chances de significar que você nunca mais andará sem auxílio.
A febre toma conta de muitos mergulhadores, na busca por artefatos e peças de "coleção", que ao longo do tempo viram enfeites de parede, muitos desses mergulhadores abandonaram e ainda abandonam conceitos básicos de segurança.
Ed Soellner dizia "Se você não pode morrer fazendo, é porque não vale a pena", mas, contrariando o espírito "Macho diver" que muitas vezes insiste em tomar conta do nosso raciocínio, como um capetinha dizendo que e restrição é apertada, mas que se você forçar poderá passar, Exley disse "O bem mais valioso que você pode trazer do fundo, é você mesmo".
Paradoxalmente, a YMCA nos idos de 1966 tinha uma recomendação clara em relação as cavernas em Jacksonville "Fiquem fora delas", dizia Ken Brock, o camarada responsável por Sheck Exley ter aprendido a mergulhar e que era instrutor lá... Sheck foi um dos pioneiros na exploração de cavernas, faleceu em 6 de abril de 1994 explorando o "pit 6350" cerca de 100 km ao norte de Tampico no México, durante um mergulho a 307 metros de profundidade com Jim Bowden.
Sheck foi o responsável pela primeira edição do "blueprint for survival" um guia que trazia recomendações para prática segura de mergulho em cavernas.
Pontos de equilíbrio ????
A tecnologia avança, o mergulho avança com ela, alguns conceitos caem por terra, certezas que tinhamos no passado transformam-se em motivo de risadas, novas certezas, hoje sólidas, mas que num futuro breve provavelmente também serão motivo de risada vem substituir as antigas, num círculo sem fim, como a dança das marés, isso nos impele a analise da repetição e assistimos como expectadores passivos e silenciosos o mesmo filme, várias e várias vezes.
Eu tive a felicidade de explorar navios, tive a felicidade de mostrar navios inteiros pela primeira vez a amigos que nunca os tinham visto antes e vi, pessoas se transformarem sob a água, vi amigos virarem inimigos, vi pessoas roubando e escondendo peças de navios, vi pessoas se preocupando, primariamente, com os critérios de divisão de um eventual saque e abandonando totalmente práticas e procedimentos de segurança.
Alguns se apavoravam, alguns sorriam como crianças, alagando as máscaras, alguns, esses a grande maioria, se transformavam em animais na visão de uma escotilha solta no fundo, ou de um prato de porcelana chinesa.
Os americanos chamam de "Brass fever", Bernie Chowdhurry, no seu "o ultimo mergulho" teve o original traduzido como "febre de artefatos", deixando de lado discussões sem fim sobre resgatar ou não peças de navios, o que me surpreende é o descontrole que toma conta de alguns mergulhadores nessas horas.
Vi pessoas que defendiam a ferro e fogo a preservação de objetos no local onde estão, simplesmente roubarem fragmentos de porcelana, os escondendo no colete ou na roupa, para que ninguém visse o que estavam fazendo.
Muitas vezes penso nas cenas que teria, se cada um desses defensores da preservação, se visse frente a frente com um navio intacto, com um sino ou um timão, com um talher de prata ou um moitão de madeira e bronze.
A natureza humana sempre me fascinou pela diversidade, mas o tempo de mergulho e o número de pessoas que vi reagiram da mesma maneira, sob a mesma circunstancia me fez acreditar que não somos tão diversos assim.
A simples visão de um objeto "colecionável" faz o mergulhador se esquecer do risco, se esquecer de todas as regras, até as mais básicas de segurança e pior ainda, se esquecer do dupla, pratos de porcelana podem ser encontrados em feiras de antiguidade por poucas dezenas de reais, mas um impulso primitivo incendeia algumas pessoas, no mergulho técnico em naufrágio acontece de forma potencializada, o task load é muito maior e também são muitos maiores os riscos.
O mergulho de exploração de naufrágios, em ambiente técnico, ainda é uma criança, que engatinha percorrendo pequenas distâncias num grande tempo, não são muitos os mergulhadores que se dedicam, que se preocupam com a realidade da exploração, cujo objetivo principal é levar o navio até as pessoas que não podem ir até o navio.
Cousteau, o grande papa do fundo do mar, pioneiro em tornar publicas imagens submarinas de forma maciça, maravilhando duas gerações de adultos e crianças, alguns, como eu, sensivelmente influenciados pelas suas andanças e mergulhos nos pontos mais extremos do mundo, tinha a essência do conceito de exploração e um dia resumiu :
_Quero que todos possam ver aquilo tudo que eu vejo lá embaixo !
Nós do G.P.S. (Grupo de Pesquisas Subaquáticas) na realidade somos exploradores de final de semana, mas não abrimos mão de alguns dogmas que acreditamos serem não só a base do mergulho de exploração, mas a base da convivência harmoniosa, da evolução do mergulho, da evolução do trabalho em equipe e da própria evolução humana.

-Nada justifica o abandono da segurança.
-Não existe lugar para o individualismo em um time.
-Embora muitos julguem procedimentos "caretice" eles existem para preservar o time e devem ser seguidos a risca
-A segurança do time sempre vem em primeiro lugar.
-O risco a um dos membros do time, é interpretado como risco ao time todo.
-Qualquer tarefa, por mais importante que seja, deve ser instantaneamente abortada em caso de risco não tolerável.
-Qualquer membro do time, a qualquer momento pode cancelar qualquer tarefa.
-A vida humana é o bem mais precioso.
Conceitos básicos de segurança e de mergulho em equipe, fundamentais num mergulho exploratório ou, em qualquer mergulho com um índice de complexidade um pouco acima do normal e que são tão rapidamente esquecidos por tantos mergulhadores na simples visão de um pedaço de bronze, de cristal ou de prata.
Nesses ultimos dias de Julho de 2002 tivemos notícias de sucessivos acidentes de mergulho, a maior parte deles em naufrágio, mas como disse acima, vemos os mesmo erros se repetirem sucessivas vezes.
Analisando e considerando os possíveis pontos de falha que causaram acidentes ao longo dos últimos anos, chegamos as seguintes conclusões quanto as causas primárias dos acidentes:

1 – Pessoas sem treinamento adequado tentando mergulhar além de seus limites.
2 – Pessoas sem treinamento adequado usando equipamentos para os quais não estão habilitados.
3 – Pessoas mergulhando solo em ambiente de risco (=teto)
4 – Pessoas utilizando equipamento inadequado ao ambiente.
5 – Problemas diversos de equipamento.

Voltando a febre do souvenir, notamos também que hoje existem dois tipos principais de mergulhadores, aqueles que mergulham por amor ao mergulho e aqueles que mergulham por amor a platéia (risos).
Como dizia um dos meus sócios a fogueira de vaidades arde, nessas chamas, vemos jovens, que querendo abreviar a longa caminhada da experiencia se expõe a riscos de forma sucessiva, numa forma de chamar atenção, numa forma de alimentar seu próprio ego.
Novamente, independente da discussão sobre resgatar ou não, enquanto uns se preocupam com identificação, com mapeamento, com localização, para outros, um naufrágio é simplesmente uma fonte de souvenirs, que poderão ser exibidos, que poderão render aplausos de uma platéia que pouco ou nada sabe sobre aquilo, que poderão inflar o ego para muitas atmosferas além do normal, esse individuos, então travestidos de exploradores pilham os navios, mas pior que isso, expõe a risco desnecessário e exagerado, além deles mesmos, outras pessoas sem treinamento adequado, sem equipamento adequado e sem a experiência adequada.
Penetrar num navio, analisar suas estruturas, medir riscos e aceita-los num ambiente que muda em minutos, que tem sua visibilidade reduzida a próximo de zero em muito pouco tempo, onde as probabilidades de erro são muitas, mas as decisões tem de ser instantaneas pois o tempo corre, não é tarefa para ser ensinada e praticada como um curso de final de semana. Os versão remodelada dos "Macho-divers" de antigamente está de volta em sua versão 2002, mas as justificativas são as mesmas de antigamente :

Eles mergulham fundo a ar, porque a água é limpa, quente e eles "toleram" bem a narcose.
Nós antigos, a cada dia descobrimos como o rendimento do mergulho profundo é proporcional ao percentual de hélio da mistura.
Eles não acreditam em times, pois é dificil sincronizar ações sem planejamento e técnica.
Nós antigos, temos as definições de função de cada membro da equipe claras e presentes durante todo o mergulho.
Eles não acreditam em padronização, pois cada um usa o seu equipamento.
Enquanto isso, nós analisamos exaustivamente todas as novas propostas de configuração, testamos as possibilidades e adotamos os pontos positivos como padrão para todo o time.
Eles não acreditam em certificação e experiencia.
Nós acreditamos que além da certificação adequada, alguns ambientes exigem muita experiencia, capacidade de decisão sob stress além de informação e formação sólidas para suportarem decisões rápidas.
Eles não acreditam em contingências, afinal, nunca acontecerá com eles.
Nós já vimos os acidentes acontecerem e jamais cometeremos os erros do passado.

Um dia, o mergulho começou, os equipamentos evoluiram, alguém os testou, os procedimentos foram modificados, alguém os inventou ou adaptou mas, insistir em fórmulas antigas, quando já está provado que elas são infundadas é estupido !
Ninguém tolera bem narcose, ninguém está preparado para ambiente de teto sem equipamento adequado, mergulho profundo não deve ser feito por mergulhador recreacional e nada substitui o treinamento e a prática !
Insistir nos erros do passado, quando já se provou que eles vão continuar a acontecer enquanto as pessoas não acreditarem que, mesmo havendo mais de um jeito de faze-lo, alguns funcionam, outros não, vai continuar levando mergulhadores para o fundo, mas não do mar, nem dos naufrágios, nem das cavernas.
Hoje nós temos todo essa informação disponível, acessível, rápida e farta, porque algumas pessoas então insistem nos mesmo erros ???
Enquanto algumas pessoas, por satisfação pessoal, por necessidade de afirmação de sua sexualidade masculina, ou por necessidade de alimentação do ego, continuarem acreditando que os limites são coisa de "babaca", infelizmente, nós continuaremos a receber notícias de mergulhadores que nunca mais terão que se preocupar com o consumo de gás.
As certificadoras não criam os limites porque entendem que eles são "bacanas" já foi provado que excede-los potencializa os riscos.
Tenha certificação e procure treinamento para o mergulho que você quer fazer.
Aumente seus limites de forma progressiva, ir a 200 metros no seu primeiro mergulho trimix não quer dizer que você é o super homem, mas voltar desse mergulho quer dizer apenas, que você teve sorte.
E principalmente, lembre-se de que a sorte existe, pode estar ao seu lado, mas um dia, ela pode se distrair e por alguns segundos esquecer de olhar por você.
Mergulhe com segurança, treine, evolua, amadureça, curta muitos anos de mergulho e nuna se esqueça que pode acontecer a qualquer um de nós, cabe só a você facilitar ou dificultar.
Nada, nada vale uma vida !

Abraços e bons mergulhos

Marcelo "Moorea" Polato (07/2002)

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